FILME PELÉ ETERNO

FILME PELÉ ETERNO
A prova definitiva de quem é o melhor jogador de sempre

domingo, 17 de fevereiro de 2013

O que diz a FIFA sobre PELÉ

*Extraído do site oficial da FIFA.
Pelé

Simplesmente o Rei

Pelé. O Deus do futebol. "O Rei". Seja qual for o nome, a lembrança é a mesma - de uma superestrela mundial - um ícone dos recordes no futebol. Seu feito mais importante e inigualável foi vencer três Copas do Mundo FIFA.Edson Arantes do Nascimento, ou Pelé, era um gênio que estava constantemente reinventando o jogo de futebol.

Em cada toque na bola, cada passe, cada drible, Pelé era capaz de produzir algo novo, algo que os torcedores nunca tinham visto antes. Com um instinto assassino na frente do gol, um passe perfeito e criatividade driblar, Pelé era simplesmente o jogador perfeito. E, se a Seleção é a encarnação do futebol-arte aos olhos de tantos fãs de todo o mundo, boa parte disso pode ser creditada às habilidades espetaculares de seu celebrado camisa 10.

Uma estrela desde o início

Edson Arantes do Nascimento nasceu em 23 de outubro de 1940 em Três Corações, Minas Gerais. Descoberto pela primeira vez aos 11 anos pelo ex-jogador da Seleção, Waldemar de Brito, Pelé entrou no Santos aos 15 anos de idade e ainda não tinha completado 16 quando marcou em seu primeiro jogo oficial contra o Corinthians, em setembro de 1956. Nascia uma lenda.

Em 1958, ele jogou pela primeira vez na Copa do Mundo da FIFA™, com apenas 17 anos. O mundo ficou assombrado quando um frágil adolescente surgiu do nada para brilhar no torneio, com um gol contra o País de Gales nas quartas de final e três gols na partida contra a França, na semifinal. Tudo isso, claro, foi apenas um prelúdio. Porque, se houvesse quaisquer dúvidas sobre quão longe aquele garoto poderia ir,  elas acabaram na final, contra a Suécia. Pelé marcou o terceiro e o quinto gols brasileiros na vitória por 5 a 2 - o primeiro deles um dos mais belos da história do Mundial, após um chapéu espetacular num zagueiro e um sem-pulo. O defensor Sigge Parling confessou mais tarde: "Depois do quinto gol, eu tive vontade de aplaudir".

No apito final, o goleiro Gilmar, da Seleção, lembra afetuosamente ter consolado o jovem gênio enquanto ele era carregado para fora do campo aos prantos nos ombros de seus colegas. Pelé teve grande sucesso nos anos seguintes, atormentando as defesas e confirmando seu status de ídolo do futebol. Ele marcou 127 gols em 1959, 110 em 1961 e venceu duas vezes a Copa Libertadores (1961, 1962), dois Campeonatos Mundiais de Clubes (1962, 1963) e nove Campeonatos Paulistas.

Dor e frustração

Pelé chegou à Copa do Mundo da FIFA de 1962, no Chile, no auge da forma e pronto para animar o mundo mais uma vez. Era o cenário perfeito para demonstrar seu talento. Mas até a realeza está sujeita aos infortúnios: Pelé sofreu uma contusão no primeiro jogo do Brasil e não pôde mais jogar na Copa. Ele assistiu do lado de fora enquanto seus colegas reconquistavam o título mundial. Então, Pelé era um homem marcado. E o mesmo fato infeliz se repetiu em 1966, quando ele deixou o campo em uma maca, afastado no terceiro jogo do Brasil contra Portugal. Dessa vez, no entanto, ele foi forçado a assistir do banco de reservas enquanto seus colegas era eliminados da competição.

O camisa 10 teve que esperar até o México, em 1970, para fazer o mundo se lembrar de sua excepcional técnica. Habilmente assistido por Jairzinho, Tostão, Rivelino e Carlos Alberto, o Rei brilhou em toda a sua glória naquele ano. Na primeira Copa do Mundo da FIFA transmitida em cores para todo o mundo, parecia que Pelé estava determinado a dar um novo sentido ao jogo. Os destaques incluíram a tentativa de marcar por cobertura do meio de campo contra a Tchecoslováquia, uma cabeçada fascinante que ganhou uma defesa ainda mais fascinante do goleiro inglês, Gordon Banks, e o inesquecível momento insolente, quando ele passou sobre a bola, deixando-a correr pelo goleiro uruguaio Mazurkiewicz antes de chutar para fora, rente à trave.

Simbolicamente, foi Pelé quem marcou o 100º gol da Copa do Mundo da FIFA na final do México, com uma cabeçada magnífica após um salto tipicamente atlético. "Foi uma emoção especial marcar com a cabeça. Meu pai uma vez marcou cinco gols de cabeça em um jogo, esse é um recorde que eu nunca consegui bater" disse Pelé, mais tarde.

Tarcisio Burgnich, o zagueiro italiano que tinha sido escalado para dura tarefa de marcar Pelé na final, foi citado mais tarde, dizendo: "Eu disse a mim mesmo antes do jogo, 'ele é feito de carne e osso como todo mundo'. Mas eu estava errado". O Brasil conquistou o direito de manter o troféu Jules Rimet depois de vencer pela terceira vez com aquele que talvez tenha sido o melhor time de todos os tempos. Pelé se tornou uma lenda viva. No dia depois da final a manchete do Sunday Times resumiu: "Como se soletra Pelé? D-E-U-S".

Quando o herói se transformou em lenda

Pelé realmente foi uma lenda e estabeleceu alguns recordes verdadeiramente assombrosos em sua carreira. Seu milésimo gol aconteceu em 1969, em frente a uma multidão delirante no Estádio do Maracanã. Ele marcou cinco gols em uma partida em não menos de seis, quatro gols em 30 ocasiões e três gols 92 vezes! Em um jogo, contra o infeliz Botafogo de Ribeirão Preto em 1964, ele balançou a rede nada menos que oito vezes! Ao todo, o grande homem marcou 1.281 gols em 1.363 partidas e participou de 92 partidas internacionais.

Pelé deixou o futebol em 1974, antes de retornar um ano mais tarde para jogar para o New York Cosmos "para trazer o jogo mundial para o público norte-americano". Em 1977, ele finalmente pendurou as chuteiras. J. B. Pinheiro, o embaixador brasileiro da Nações Unidas, foi citado dizendo, "Pelé jogou futebol por 22 anos e nesse período ele fez mais para promover a amizade e a fraternidade no mundo do que qualquer outro embaixador do planeta". E quem poderia contradizê-lo? Durante a guerra da Nigéria, foi declarado um cessar-fogo quando Pelé foi jogar em Lagos, em 1970. O presidente do Brasil o declarou "patrimônio nacional" para evitar qualquer eventual transferência para um clube europeu. E,no Santos, 19 de dezembro será para sempre o "Dia de Pelé", para comemorar o aniversário de seu milésimo gol marcado no Estádio do Maracanã.

Desde o fim de sua carreira Pelé usa seu status de embaixador para promover seu país, as Nações Unidas e a UNICEF. "Toda criança do mundo que joga futebol quer ser Pelé, o que significa que tenho a responsabilidade de mostrar a eles como ser um jogador de futebol, mas também como ser um homem". Mas é para isso que existem os deuses, não é?

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Vinícius de Moraes sobre Pelé


Um abraço em Pelé

Vinicius de Moraes, autor de
GAROTA de IPANEMA

Eu ainda não tive o prazer de lhe ser apresentado, meu caro Pelé, mas agora, com o fato de termos sido condecorados juntos pelo governo de França - você no grau de Cavaleiro e eu no de Oficial: e mais justo me pareceria o contrário - vamos certamente nos conhecer e tornar amigos. Ninguém mais que você merece tão alta distinção, sobretudo por ter sido conferida espontaneamente - pois ninguém mais que você tem levado o nome do Brasil para fora de nossas fronteiras. Da Sibéria à Patagônia todo mundo conhece Pelé; e eu estou certo de que você entraria fácil na lista das dez personalidades mais famosas de nossos dias.
Não posso disfarçar o orgulho que a condecoração me causa, embora seja, de natureza, avesso a honrarias; e orgulho tanto maior porque nela estamos juntos: preto e branco (as cores do meu Botafogo!) e também as cores irmãs de nossa integração racial. Sim, caro Pelé, nós representamos, em face da comenda que nos é conferida, o Brasil racialmente integrado, o Brasil sem ódio e sem complexos, o Brasil que olha para o futuro sem medo porque, apesar dos pesares, é bom de mulher, bom de música, bom de poesia, bom de pintura, bom de arquitetura e bom de bola. Particularmente por isso considero-me feliz de estar a seu lado no momento em que nos colocarem no peito a condecoração.
Que você tenha sido distinguido pela Ordem Nacional do Mérito da França nada me parece mais natural. A França sempre deu um alto valor ao gênio, e você, meu grande Pelé, é um gênio completo, porque o seu futebol representa um reflexo imediato de sua cabeça nos seus pés. Eu não sou gênio, não. Eu tenho que pensar um bocado para que a mão transmita direito o que a cabeça lucubrou. Meus gols são mais raros que os seus. Você é com justa razão chamado o Rei. Quanto a mim, que rei sou eu?
Mas nada disso turva a satisfação que sinto em ser o seu Coutinho nesta nova investida do Brasil na área internacional. Parabéns, meu caro Pelé. Parabéns e o melhor abraço aqui do seu irmãozinho!

A 1ª crônica de NÉLSON RODRIGUES sobre PELÉ

  Por Robson Morelli

ACHEI UMA CRÔNICA DE NELSON RODRIGUES* SOBRE PELÉ, DATADA DE 25 DE MARÇO DE 1958, NUM SANTOS 5 X 3 AMÉRICA, NO MARACANÃ.

O JOGO ERA VÁLIDO PELO TORNEIO RIO-SÃO PAULO. TUDO INDICA QUE É A PRIMEIRA CRÔNICA DE NELSON SOBRE PELÉ. UMA RARIDADE, PORTANTO. ACOMPANHE:

*Nélson Rodrigues(foto), o PAPA da crônica esportiva brasileira e considerado o maior dramaturgo brasileiro de todos os tempos.

Depois do jogo América x Santos, seria uma crime não fazer de Pelé o meu personagem da semana. Grande figura, que o meu confrade Albert Laurence chama de “o Domingos da Guia do ataque”.

Pelé aos 17 anos, titular absoluto do Santos
Examino a ficha de Pelé e tomo um susto: — dezessete anos! Há certas idades que são aberrantes, inverossímeis. Uma delas é a de Pelé. Eu, com mais de quarenta, custo a crer que alguém possa ter dezessete anos, jamais. Pois bem: — verdadeiro garoto, o meu personagem anda em campo com uma dessas autoridades irresistíveis e fatais.

Dir-se-ia um rei, não sei se Lear, se imperador Jones, se etíope. Racionalmente perfeito, do seu peito parecem pender mantos invisíveis. Em suma: — Ponham-no em qualquer rancho e sua majestade dinástica há de ofuscar toda a corte em derredor.

O que nós chamamos de realeza é, acima de todo, um estado de alma. E Pelé leva sobre os demais jogadores uma vantagem considerável: — a de se sentir rei, da cabeça aos pés. Quando ele apanha a bola e dribla um adversário, é como quem enxota, quem escorraça um plebeu ignaro e piolhento. E o meu personagem tem uma tal sensação de superioridade que não faz cerimônias.

Já lhe perguntaram: — “Quem é o maior meia do mundo?”. Ele respondeu, com a ênfase das certeza eternas: — “Eu”. Insistiram: — “Qual é o maior ponta do mundo?”. E Pelé: — “Eu”. Em outro qualquer, esse desplante faria rir ou sorrir. Mas o fabuloso craque põe no que diz uma tal carga de convicção, que ninguém reage e todos passam a admitir que ele seja, realmente, o maior de todas as posições. Nas pontas, nas meias e no centro, há de ser o mesmo, isto é, o incomparável Pelé.

1º título de campeão
e artilheiro do Santos com 56 gols
Vejam o que ele fez, outro dia, no já referido América x Santos. Enfiou, e quase sempre pelo esforço pessoal, quatro gols em Pompéia. Sozinho, liquidou a partida, liquidou o América, monopolizou o placar. Ao meu lado, um americano doente estrebuchava: — “Vá jogar bem assim no diabo que o carregue!”.

De certa feita, foi até desmoralizante. Ainda no primeiro tempo, ele recebe o couro no meio do campo. Outro qualquer teria despachado. Pelé, não. Olha para frente e o caminho até o gol está entupido de adversários. Mas o homem resolve fazer tudo sozinho.

Dribla o primeiro e o segundo. Vem-lhe ao encalço, ferozmente, o terceiro, que Pelé corta sensacionalmente. Numa palavra: — sem passar a ninguém e sem ajuda de ninguém, ele promoveu a destruição minuciosa e sádica da defesa rubra. Até que chegou um momento em que não havia mais ninguém para driblar.

Não existia uma defesa. Ou por outra: — a defesa estava indefesa. E, então, livre na área inimiga, Pelé achou que era demais driblar Pompéia e encaçapou de maneira genial e inapelável.

Ora, para fazer um gol assim não basta apenas o simples e puro futebol. É preciso algo mais, ou seja, essa plenitude de confiança, certeza, de otimismo, que faz de Pelé o craque imbatível. Quero crer que a sua maior virtude é, justamente, a imodéstia absoluta. Põe-se por cima de tudo e de todos.

E acaba intimidando a própria bola, que vem aos seus pés com uma lambida docilidade de cadelinha. Hoje, até uma cambaxirra sabe que Pelé é imprescindível em qualquer escrete. Na Suécia, ele não tremerá de ninguém.

Há de olhar os húngaros, os ingleses, os russos de alto a baixo. Não se inferiorizará diante de ninguém. E é dessa atitude viril e mesmo insolente que precisamos. Sim, amigos: — aposto minha cabeça como Pelé vai achar todos os nossos adversários uns pernas-de-pau.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

O 1000º GOL DE PELÉ - por Nelson Rodrigues


Nélson Rodrigues, o PAPA
da crônica esportiva brasileira.
O GOL 1000

Amigos, a cidade tem 5 milhões de habitantes, talvez mais. Pois esses 5 milhões deviam estar presentes, anteontem, no Estádio Mário Filho para ver o milésimo gol de Pelé *. 

Dirão os idiotas da objetividade que o ex-Maracanã comporta, no máximo, 250 mil pessoas. Mas os que não pudessem entrar ficariam do lado de fora, atracados ao radinho de pilha e chupando laranjas. O que acho incrível e, sobretudo, indesculpável é que alguém, vivo ou morto, pudesse ficar indiferente à mais linda festa do futebol brasileiro em todos os tempos. Sim, os vivos deviam sair de suas casas e os mortos de suas tumbas. 

Viva a mulher bonita, que não faltou. Só as feias não apareceram. Não sei se sabem que o sublime crioulo fascina a mulher bonita. As mais lindas garotas estavam lá. Mas falei em festa do futebol e, realmente, foi muito mais do que isso. Era uma festa nacional, a festa do povo, a festa do homem.

Na fila dos elevadores, o meu primeiro olhar descobriu a grã-fina das narinas de cadáver. Vocês entendem? Ela continua não sabendo quem é a bola. Mas o que a magnetizava era Pelé como homem, mito e herói. Bem sabemos que futebol é um esforço coletivo. São os times que ganham, perdem ou empatam. 



Selo comemorativo
dos 1000 gols
Mas no caso de Pelé, foi um só. Só ele marcou os mil gols. Nunca se viu nada parecido no mundo. É uma glória maravilhosamente individual, maravilhosamente solitária. Some-se a isto os gols que ele deu na bandeja, gols dos quais ele foi o co-autor, ou melhor, foi mais autor do que o autor. Um passe genial vale como um gol. Muitos lamentam que tenha sido de pênalti. Meu Deus do céu, e daí? Na sua penetração fulminante, tinha batido toda a defesa adversária. Ia entrar com bola e tudo. E sofreu o pênalti. Não foi um companheiro, mas ele próprio quem foi derrubado. Não queria cobrar.

Mas seus companheiros fizeram uma greve linda contra opênalti. Ninguém tocaria na bola. E, então, 100 mil pessoas, na gigantesca cadência coral, começaram a exigir: — “Pelé, Pelé, Pelé!”.Uma das que mais se esganiçavam era a grã-fina das narinas de cadáver. Uma louríssima suspirou, arrebatada: — “Com esse eu me casava!”.Mas vejam como o grande acontecimento tem a paisagem própria. Como já escrevi, Austerlitz não podia ser disputada num galinheiro. Foi isso que eu disse, quando o Santos jogou no campo do Esporte Clube Bahia. É óbvio que, depois do Estádio Mário Filho, todos os campos pequenos se tornaram galinheiros irremediáveis. O Pacaembu, por exemplo, é um galinheiro.

O campo do Botafogo, do Fluminense, do Parque Antártica, e centenas, milhares de outros campos obsoletos, são outros tantos galinheiros. É aqui e, repito, é no Estado Mário Filho que Pelé teve os seus grandes dias e as suas grandes noites. O próprio crioulo sabe que é muito mais amado aqui do que em São Paulo. Quando a bola foi colocada na marca do pênalti, criou-se um suspense colossal no estádio. O meu colega e amigo Villas-Bôas Corrêa, que não tem nada de passional, estava comovido da cabeça aos sapatos. A louríssima, por mim citada, sentia-se cada vez mais noiva de Pelé. O marido, ao lado, parecia concordar com o noivado e dar-lhe sua aprovação entusiástica. Eu não sei como dizer. 

Carimbo dos Correios

Mas estávamos todos crispados de uma emoção, um certo tipo de emoção, como não conhecíamos. Ao que íamos assistir já era História e já era Lenda. Imaginem alguém que fosse testemunha de Waterloo, ou da morte de César, ou sei lá. No ex-Maracanã, fez-se um silêncio ensurdecedor que toda acidade ouviu. No instante do chute, a coxa de Pelé tornou-se plástica, elástica, vital, como a anca de cavalo.

Mas havia alguém contracenando com ele no quinto ato da batalha. Era o formidável goleiro argentino Andrada. Em qualquer hipótese, ele ia se tornar uma figura histórica: — defendendo ou não. E quando Pelé estourou as redes, o Estádio Mário Filho voou pelos ares. Desde Pero Vaz de Caminha, nenhum brasileiro recebera apoteose tamanha. 


De repente, como patrícios do guerreiro, cada um de nós sentiu-se um pouco co-autor do feito. Pelé voou, arremessou-se dentro do gol. Agarrou e beijou a bola. E chorava, o divino crioulo. Cem mil pessoas, de pé, aplaudiam como na ópera. Depois, assistimos à volta olímpica. Pelé com a camisa do Vasco, Naquele momento éramos todos brasileiros como nunca, apaixonadamente brasileiros.

* Santos 2 x 1 Vasco da Gama, 19/11/1969, no Estádio Mário Filho. [O Globo, 21/11/1969] 




segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

GOL DE PLACA, 50 ANOS

Gol de placa, 50 anos: Pelé fez chorar o Maracanã.
A história que deu origem ao mito do golo mais famoso do rei do futebol.
Por Sérgio Pereira ( extraído do site maisfutebol )


5 de Março de 1961.
Faz este sábado 50 anos que Pelé marcou o golo mais famoso da carreira, e um dos golos mais mediáticos do futebol: o golo de placa. Aconteceu num estádio também ele histórico, o Maracanã. Não ficou guardado em suporte vídeo, mas tornou-se imagem de marca do futebol.

A jogada, dizem, durou uma eternidade e deu origem ao mito, que deu origem à lenda. Por detrás vive, lá está, uma placa. «É uma placa de bronze, singela, feita num ourives na Praça da Sé, ao lado da Catedral de S. Paulo», conta Joelmir Beting. «Custou cinco mil cruzeiros, hoje seriam 120 euros.»

Antes disso, a verdadeira obra: o golo. Estádio Maracanã, no Rio de Janeiro. Era um domingo à tarde. Jogava-se a meia-final da Taça Rio-São Paulo. «O Maracanã tinha 130 mil pessoas. Enchia sempre que o Pelé jogava. Ele dizia que era o estádio que melhor o tratava, porque estava sempre lotado.»

O jogo estava emocionante. «O Santos, e o Pelé, estavam a ser vaiados pelo estádio inteiro, que torcia pelo Fluminense. Aos 72 minutos o Pelé recolheu a bola com o peito, perto da área do Santos, colocou-a no chão, e atravessou todo o relvado, que tinha 112 metros de comprimento», adianta Beting.

«Começou a correr, fintou toda a gente, recuou duas vezes à procura de colegas a quem passar a bola e não encontrou ninguém. Virou-se para a frente, continuou a passar por tudo e todos, passou até pelo guarda-redes Castillo e fez golo.» Há fotos da jogada. Sobretudo de Altair, a maior vítima de Pelé.

É nesse instante, no instante que Pelé faz o golo perante 130 mil pessoas, que nasce o mito. Mete também um nome grande do jornalismo: o eterno Nélson Rodrigues. «Em 1961 eu era um jornalista em início de carreira, tinha 24 anos. Fui encarregado pelo meu jornal, o Esportes, de cobrir o Santos.»

Joelmir Beting viajava para todo o lado com a equipa.
«Ao meu lado na bancada estava Nélson Rodrigues. Ele tratava-me por Guri, porque pensava que eu era gaúcho. Dizia-lhe que era paulista, mas não ligava. Tratou-me toda a vida por Guri. Então virei-me para ele e ele estava a chorar», recorda.

«Estava a chorar com a emoção de 130 mil pessoas a aplaudir Pelé de pé.
Olhou-me e disse: Que pena, Guri. Este lance não vai ter memória.»
Não havia câmaras, eram proibidas para encher o estádio.
Havia uma equipa de cinema, que fazia um filme, mas que só gravou a parte final da jogada.

As palavras de Nélson Rodrigues, «que já era um nome muito conceituado», ficaram na cabeça do jovem Joelmir Beting.
«No regresso a S. Paulo, no avião, ia a pensar naquilo.
Lembrei-me: se não há memória, vamos fazer memória.
Vamos criar uma placa.» Ele próprio tratou da encomenda.


«Ficou pronta na quinta-feira seguinte e domingo foi inaugurada.
O Santos voltou ao Maracanã para jogar com o Vasco e o Pelé inaugurou a placa.
Foi colocada ao lado da foto de Jules Rimet.» Daí nasceu a expressão.
«Era comum os jornalistas escreverem este golo também merece uma placa.»

Mas não mereceram. Pelo menos com aquela história.
A placa ficou durante décadas no espaço nobre do Maracanã
e hoje está no Museu do Futebol, em São Paulo.
O novo Maracanã, que está a ser construído, vai ter apenas uma réplica.
 A verdadeira fica bem guardada num museu.

Faz 50 anos que nasceu o golo de placa.
No Brasil vai ser celebrado com uma cerimónia especial.
«Foi o golo mais bonito do Maracanã.
O Pelé diz que entre os golos bonitos que fez, foi o mais difícil.
Até o árbitro Aires de Abreu parou para o cumprimentar.»

Como a placa, o mito também é eterno.

Reconstituição do golo de placa:

Jogo de Botão

*Crônica de Renato Maurício Prado (  jornalista e cronista de O GLOBO )
 com o 11 inicial do menino adaptado aos jogadores de hoje.

Distraído, o garoto (de pouco mais de dez anos) até que não estava muito ligado na coisa.
O pai e o avô, entretanto, vibravam com os lances de Pelé:

-- Olha só este gol contra País de Gales!
-- E esta "boca" no Mazurkievickz...
-- Que golaço contra o Benfica! Deus do Céu...

Embalados na magia da telinha, o pai e o avô viajavam no tempo, deliciando-se com a genialidade de Pelé -- destacada porque naquele dia fazia 3 décadas e meia que o maior jogador do mundo encerrara a sua carreira no Santos. Pois foi quando se falou em "maior do mundo" que o miúdo embirrou:

-- Maior do mundo? E o Ronaldinho?E o Cristiano?E o Messi?

O pai e o avô se entreolharam, espantadíssimos.

-- O que é isso, menino? Ficou maluco? Olha só o que o Pelé fazia! Desde quando o Ronaldinho foi tão bom assim? Quando ganhou três Copas? Nem repita tal bobagem! -- replicou o avô, em tom de ralha.

Em sua inocência infantil, o pequeno deu de ombros e, num muxoxo, repetiu, tranquilamente:

- Para mim, Ronaldinho é melhor. E o Cristiano Ronaldo e o Messi também...

A heresia era grave e, embora o pai balançasse a cabeça com ar de "perdoai-o, pois ele não sabe o que diz", o avô resolveu pegar em armas:

-- O Pelé era tão melhor que o Ronaldinho e esses outros aí quanto eu sou melhor que você em futebol de botão. Não jogo há mais de 30 anos mas encaro um desafio e aposto que ganho. Sua geração pode ser craque em vídeogame. Em botão, que é bom, quero ver.

Agora era irreversível. Apesar dos protestos da mãe e da avó, pois o almoço já estava para ser servido, a mesa de botão foi armada às pressas e o garoto tratou de ir arrumando o time vistoso e colorido, enquanto ia escalando a sua "seleção":

-- Casillas, Daniel Alves, Puyol, Thiago Silva e Roberto Carlos;  Xavi, Ronaldinho Gaúcho e Iniesta; Cristiano Ronaldo, Neymar e Messi.

Uma equipe capaz de fazer babar qualquer técnico. Insuficiente, porém, para assustar o esquadrão de botões de osso que o avô desencavou do baú de guardados:

-- Gilmar, Djalma Santos, Domingo da Guia, Orlando e Nilton Santos; Gérson e Didi; Garrincha, Pelé, Zico e Rivelino.

Com a arbitragem do pai, começou a peleja e, ganhando o sorteio na moedinha, o garoto partiu para o ataque, e ao mesmo tempo, fazia a locução do jogão:

-- Ronaldinho toca pra CR7, que passa de calcanhar pra Xavi, que lança Messi, que dribla 3 e cruza para Iniesta, que de cabeça passa a bola a Neymar, que joga a bola sobre a área...

Atento, na cabeça de área, o botão de Domingos da Guia interceptou a jogada e foi a vez do avô avançar, igualmente, comentando a partida:

-- Tarde de céu azul no Maracanã, o maior e mais lindo do mundo. Cabeça erguida, o "Divino" Domingos estica a Pelé. Lá vai o deus de todos os estádios...

Lá ia, pois a bolinha escapou-lhe e, uma vez mais, coube ao menino a jogada, que só não terminou em gol porque o petardo de Roberto Carlos explodiu no travessão. A coisa começava a ficar preta para o velho. Mais afeito ao novo material, o time do neto ganhava as divididas, passava e chutava com maior precisão e sua vitória parecia questão de tempo. Apavorado, o avô "arrecuou os jogadô para (no melhor estilo Gentil Cardoso) evitar a catastre".

-- O almoço está na mesa!

O aviso da mãe soou como a salvação para o senhor. Salomonicamente, o pai decidiu:

-- Na primeira bola fora, acaba o jogo.

E o ataque ainda era do pequeno fã de Ronaldinho. E era o próprio quem tinha a pelota dominada:

-- Pra gol! -- sentenciou o neto.

Trêmulo, o avô colocou o seu goleiro (guarda-redes) bem debaixo dos paus. Veio a bomba e a bola bateu no travessão, repicou no cocuruto da caixa de fósforos chumbada que encarnava Gilmar e rolou para o outro lado do campo, indo parar rente à linha lateral, numa posição meio morta.

-- Não saiu, você ainda tem um ataque -- disse o pai ao avô, enquanto o pequenino urrava contra o azar e queria dar o jogo por encerrado.

-- Não tem jeito. É zero a zero mesmo, vô. Mas o seu Pelé não ganha do meu Ronaldinho, nem do meu Messi, nem do meu CR7 nunquinha, viu?

-- Para o gol.

A decisão do avô surpreendeu o menino. Perto da bolinha, não havia nenhum botão em posição de chute. O mais próximo e mesmo assim enviesado e longe era o botão de osso de número 10.

-- Para o gol. Com o Pelé! -- insistiu o avô.

Displicentemente, o pirralho colocou o seu Casillas na marca do pênalti, fechando o único ângulo possível. O avô calculou a tangência e disparou o Pelé com tudo. Bola de efeito, por cobertura, fundo da rede. Um a zero, fim de jogo.

Enquanto o avô saía a saltar, socando o ar, numa alegria de menino, o pimpolho dirigia-se para a mesa, resmungando como um velho ranzina, quase chorando de raiva. O pai? Deu um beijo na mãe e balançou a cabeça, parafraseando, baixinho, o grande cronista Armando Nogueira:

-- Este Pelé, hein? Até em jogo de botão, é indigesto... eh eh eh

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